Temos a teimosia de somente favoritar o que parece inacessível, supostamente intocável. Por isso essa mania de engrandecermos os sonhos, os livros, os mortos e as memórias.
Batemos em portas enferrujadas, crentes de que esquecemos algo lá. Procuramos no âmago da vida um sentido para que elas façam parte das nossas vidas também.
O que não entendemos é que as portas estão lá para que possamos apreciar o que há do lado de fora ou o de dentro. Se fosse para estarem abertas não haveria paredes, divisórias. Nossas vidas seriam um espaço aberto, infinito, perdido e afogado em sua crua imensidão.
Na verdade tudo é labirinto, entrelaçando segredos entre a luz do túnel e seus tormentos.
Portas não fecham caminhos, abrem saídas de escape.
Entenda, a vida é muito grande para ser vivida de uma vez. Somos mais que nossas portas, nossos escapes, nossos labirintos, nossos tormentos; mas somos nossos.
Engrandecemos o que não vivemos por saber que são essas as saídas de emergência de uma vida sem freios, nem escadas de incêndio. Vulgar, cruel e real demais.
Acabamos sendo parciais. Partes de nós tornam-se inacessíveis.
Somos imensos demais para sermos um todo. Somos humanos demais para sermos os mesmos.
