terça-feira, 25 de junho de 2013

Liberdade Clandestina


Levantou de súbito, pegou seu sobretudo marrom e saiu porta afora. Tinha dificuldades para inspirar, o ar cortava-lhe as narinas como se fosse ácido, como se fosse sólido, como se fosse cítrico. Não tinha ideia do que estava fazendo ou para onde estava indo. Somente era guiada pelos próprios passos, dados a torto e a direito em um caminho já refeito tantas vezes antes. Associava cores e barulhos com memórias, e isso embaçava-lhe o presente. Porque tudo tem que ser tão vulgarmente real? Era difícil aceitar que o passado convertia sentimentos em acontecimentos, e assimilava fragmentos de um instante a uma história de vinte páginas (frente e verso). 
Quando deu por si, estava parada na mesma esquina na qual sempre estagnava todas as vezes ao repetir seu ritual. Inconscientemente a par de suas nem tão lúcidas nostalgias, percebeu que tinha, na mão, a xícara que continha seu café forte com três gotas de adoçante, provavelmente perdido em alguma das vielas no caminho e, no peito, a dor de quem sente o amargo alívio de uma liberdade clandestina; liberdade libertina, a qual só os presos a ela sabem desfrutar. Qualquer tentativa de escape volta-se ao início do jogo, qualquer solução é mera ilusão, porém não tão grande quanto a ilusão de saber jogar. A saída está na entrada, volte ou ande de três a cinco casas. Ela sabia, sempre soube e saberá que essa liberdade é uma cadeia opcional, mas prefere prender-se a um jogo ilusório do que a uma realidade cínica. O incerto sempre a fascinara. Dobra a esquina e dá mais cinco passos, depara-se com uma varanda de madeira maciça e podre, com uma demão de tinta descascada e coberta de velas cujas chamas tremeluziam. O mesmo vento que vai apagando as velas, lenta e pacientemente, traz um resquício de aroma de amêndoas, vindo da direção contrária. Ao virar, depara-se com um fim de tarde que para alguns pode ser banal, pois apenas indica a chegada da noite, mas para ela indica a despedida dos incertos vestígios de luz em direção ao cheiro desconhecido, nunca gravado. 
Volta para a esquina e segue reto contra o vento. Como era bom saber que o sonho é mais clandestino que a liberdade, e que a lembrança é atemporal. É hora de encher a xícara, foi bom ter levado um livro de bolso. Olhou de relance para trás, uma última vez, e soltou uma risada mais leve do que a folhagem outonal. O mesmo vento que brinca com seus cabelos e com seu olfato persiste em apagar o que já está fadado a desaparecer. Não lhe importava o resultado.