Como
em uma de suas crônicas, consigo imaginar o cenário descrito com a
mesma nitidez de uma lente objetiva e, com a mesma redoma de vidro
que impede a natureza humana de deturpar tamanha nostalgia, observo
seus inúmeros gestos. Consigo ouvir o senhor, num fim de tarde de um
dia agitado, recebendo a ligação de seu filho perguntando como
foram as coisas naquele dia. Já tinha a resposta tragada na memória
e o que fez foi apenas exalar. Pois, afinal, tinha sido um dia
maravilhoso.
O senhor provavelmente lembrou da manhã tão esperada, na qual recebeu homenagens e presentes do deputado e dos vereadores da região, além da visita dos membros da Academia Metropolitana de Letras, Artes e Ciências, na qual já possui lugar há um certo tempo. Imagino que isso tenha te trazido, junto com os aplausos por seu trabalho atual no jornal da cidade, a lembrança da primeira radionovela que produziu, e aquela primeira voz do reconhecimento inundou seus sentidos novamente, sussurrando em seu ouvido que tinha feito a coisa certa ao largar a carreira militar para viver fazendo o que gosta, como se deve, para que tivesse uma vida que não fosse apenas vivida, e sim, vívida. Geralmente, apenas dois ou três membros da Academia cumprimentam - quando muito -, mas, naquele dia, todos aclamaram o senhor, e não tinha como deixar de esboçar uma emoção tão grande que não transcendesse suas palavras de agradecimento. Sim, foi um dia memorável. Mas amanhã teria mais.
Ao telefone, lembrou-se primeiramente, enquanto descansava da agitação do dia, sobre os livros que ia pedir para seu filho levar na próxima visita. Sua coleção, sempre atualizada, lida e relida de cabo a rabo, estava precisando de uma incrementada. Já estava cansado de ler sobre Ramsés I e II, parecia que já não tinha mais novidades sobre o assunto. Claro que o senhor não sabia sobre o livro maravilhoso que seu filho tinha te arranjado, com muito ardor, sobre a história da humanidade relatada a partir de esculturas, cartas, objetos e escrituras, e também não sabia que eu ia te dar um de meus livros favoritos, O Livro dos Abraços, pois a surpresa ia ficar pra amanhã.
Quando percebeu que a agitação tinha passado, sobrando apenas a brisa das recordações alegres, os estilhaços de luz se propagaram e o senhor relaxou em sua cadeira, contando com a mesma emoção da memória sobre seu dia. Enquanto discorria, não se surpreendeu com o sorriso serelepe e melancólico que ia esboçando cada vez mais. E, com esse mesmo sorriso, antes de desligar, comentou para o filho que tanto ama: "Ron, amanhã será o dia mais feliz da minha vida.". Coisa que já tinha dito antes, porém fez questão de repetir antes de desligar.
O senhor disse que amanhã seria o dia mais feliz de sua vida. O senhor faleceu enquanto dormia.
Realmente, vô, escritores não morrem: Exalam poesia.