domingo, 28 de abril de 2013

Memórias pré-póstumas de um pessimista em análise



Pode-se idealizar sonhos, mas não há como idealizar uma vida. O desejo é passageiro e a vida é condutora. A idealização é relativa e a vida é padrão. Sonhos são paixão e, a realidade, ilusão. Amor, meu bem, é o que sobrou do que não sonhou.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Anti-Sonho

   O desencanto está nos olhos dos iludidos. O sonho agora pertence ao mundo, não ao sonhador. Sem escapatória, não há segredos além do mistério. A desesperança é o sonho dos céticos. Não entendem que toda utopia é sonho, mas que nem todo sonho é ilusório. Dada a fantasia, a incerteza será lançada, mas irão sempre preferir a convicção da ilusão de não sonhar. Morrem todos os dias, ancorados em seus delírios, atolados em teorias. A gravidade é fictícia, o embalsamento não. Sonhe com mistérios perdidos, utopias negadas, ou até medos inconvictos. Afinal, o anti-sonho é negação, e viver, a maior das ilusões.

terça-feira, 2 de abril de 2013


   Acompanhava o tic tac do relógio. O ponteiro ia trôpego, lentamente, consumindo o que havia de mais precioso para mim. Olhei ao redor e observava, mas não me passava pela cabeça reparar. A ansiedade é uma daquelas sensações que inibem e ao mesmo tempo apuram todos nossos sentidos. Enlouquecedor. Decidi sair e dar uma volta. Um pulinho ali na esquina ou em Salvador, não sei. O necessário para me fazer divagar, bem devagar. 

   Os prédios com amuradas corroídas pelo vento, o asfalto desgastado com a chuva, as ruas esburacadas e as pessoas desligadas, tudo aquilo me nauseava. Como podem ficar ali, sem ver o que está acontecendo? A paisagem continuava insólita em sua decadência, tudo com um quê de desprezo em relação ao resto. Como se aquele lugar não fizesse parte da realidade. Vi, de relance, um cachorro meio manco de uma pata traseira correndo atrás de uma mariposa. Decidi assistir. Ela, tão ágil, porém não muito veloz, voou baixo demais, e acabou perdendo a corrida. De repente, sumiram. Ou fui eu que saí andando? Não me lembro.

   Continuei a caminhada, e sentei em um daqueles bancos de praça de filme, com direito a pombos esperando pelas migalhas que eu não trazia. Sentei e esperei. Expirei. Exasperei. Naquele lugar em que o nada já era tudo, conectado em si e desconexo do resto, finalmente compreendi que não havia nada além de mariposas sendo engolidas lentamente pelo caminho, em um cenário hostil e alheio ao efeito de sua própria sina. De leve mergulhei em voo baixo e o cão foi se aproximando, em seu tropeçar constante. Tic tac, tic tac, tic tac...