Sentou ali e ficou. Com os cotovelos apoiados nas pernas olhando fixo para o chão, refletiu, enquanto seguia o rastro do cimento entre os azulejos mal colocados, o quão fodido estava. Não como uma crise existencial, mas como uma crise existencialista, pois, afinal, todos estavam fodidos, ele só faz parte da cadeia devoradora de vidas. Não, não queria o cardápio. Não, não utilizou o estacionamento. Não, não ficaria à vontade. Levantando um pouco os olhos, com a cabeça não completamente levantada, olhou o que o rodeava, e viu que ele não estava em volta de nada daquilo, mas ainda assim toda aquela bizarrice paris-circense o engolia e o enterrava em um montinho de terra puída. Interessante, não haveria como se camuflar naquele espetáculo neofantástico, alegoricamente desperto, mas inerte, devastador e cadavérico em sua órbita. Enquanto permanecia soterrado naquilo, soube que não era tão prudente assim respirar. Acima dele, os saltos femininos perfuravam o som e a inércia, além dos ruídos e das baforadas de cigarros mais bem preparados que a comida do lugar. Talvez tomasse uma vodka. Não porque gostasse, mas somente para quebrar aquele ciclo de café e filosofia que o circundava, chafurdando-o e remetendo-o aos locais que Sartre expunha em suas obras, tão ignominiosos como poderiam ser. Pensou em levantar-se, mas não era tão simples. Não é um ato único: levantar exige alguma ação secundária e até terciária premeditadas. Torna-se, ao pensar melhor, uma cadeia incessante de acontecimentos, como um dominó derrubado ao léu. Então, levantar proporcionaria uma ação além do acontecimento, desequilibrando o hemisfério e talvez se dessem conta de sua ausência, ali tão límpida e escondida. Sim, aceita um cigarro. Fósforo também viria a calhar. Essa centrífuga humana não perdoa, pois não existe perdão quando o crime é cumprir a própria sentença. Gostava mais do fósforo que do tabaco - o qual parecia mais comestível que o croissant da mesa em frente -, pois o cheiro do enxofre queimando era momentaneamente atemporal, como o efeito de qualquer outro vício. Queimava um a um lentamente, logo mais a caixa inteira, fazendo uma pilha com as farpas de madeira queimadas, soterrando os restos nos restos, coexistindo sob a fuligem, respirando com a falta de ar. Então levantou e pediu um café. Pena que o preço do café no Starbucks fosse tão caro para seus ideais revolucionários. Protestou. Sem adoçar ficava mais barato. Pagou rapidamente. Logo mais começava o sarau.
(Em caso de considerar o texto acima como não inteiramente fictício, saiba que: Qualquer irracionalidade nas ordens cronológica e lógica dos fatos que desencadeiam a história não está - apenas - relacionada à insensatez e desinformação da autora em relação ao estabelecimento citado e, sim, a alguns membros que frequentam o mesmo)
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