quarta-feira, 30 de abril de 2014

Veja bem

Sinto mais do que entendo
Sinto que entendo
Muito mais do que
Realmente sei

E sei que não compreendo
Muito do que vejo
Então, veja bem:

Acaba que de tudo
Pouco entendo


Sinto muito
    Nada sei

domingo, 27 de abril de 2014

Metrópole em (des)construção

Canalizando os amanhãs
Para um hoje que nunca existiu
O vento em minhas entranhas
Arrasta minha essência para todos os lados
Devastando meus interiores
Urbanizando-me

Sem estrada
Metropolizada
Surpreendida pela construção

Desmoronei em mim
Para cair no mundo

Minhas cinzas rodopiam
Ululantes
Na fumaça
No hemisfério
Na redoma
No holocausto
Na sobra
Nos templos
E nas fronteiras
Das terras com as quais
Eu não teria porque
Sonhar

terça-feira, 1 de abril de 2014

Miscelâneas esporádicas da inércia contemporânea

A luz já havia voltado, mas o gotejar lento e hipnotizante da cera quente no taco deixava um aroma amadeirado e rústico naquele apartamento tão mórbido e desabitado, como se estivesse guardado por anos dentro de um gaveteiro velho no sótão daquela metrópole, junto dos famosos cabarés, das simplórias pharmácias e armazéns, sem poder ser farejado ou removido, nem mesmo pela Grande Varredura, a qual eliminara tudo o que daria a ideia de que um dia houve uma história que não fosse moderna, um passado que não fosse presente. Sentei num canto daquele cômodo em posição fetal, pois sabia que o momento iria se exaurir ao primeiro toque de campainha, ou com o primeiro latido distante, então aproveitei para absorver e retroceder um pouco, numa tentativa desesperada de nutrir um pouco do que possa ser a minha história e eu pudesse, assim, existir um pouco mais em mim, como também poderia existir um pouco mais no mundo, se houvesse um pouco mais de mundo para existir.
Esse mundo do qual vos falo só existe para mim quando não estou absorto em liberdade clandestina, aparecendo apenas como projeção de meu inconsciente, vivido pelo outro eu que há em mim. Ele existe em plenitude, isso não posso ignorar em nenhuma das vidas de minha existência. Preenchido por completo, como cerveja fabricada, foi pressurizado, lacrado e, como todo produto biótico, possui sua data de validade carimbada na base, mas apenas basta olhar as testas e os olhos das pessoas para se ter uma noção básica. Ou seja, tudo que poderia existir já existe. Extravasem, imaginem tecnologias absurdas, que façam seus miolos estourarem, ou armamentos que realmente os estourem. Fonte de energia infinita está na lista, sim. Menti quando disse que em algum momento a luz havia acabado, era realmente o que queria pensar, mas não, não era bem assim. O que a raça humana tinha a oferecer ao mundo, em termos de criações e evoluções, já o havia feito; o que o mundo poderia oferecer às pessoas era demais, mas nem próximo do suficiente. Bom, ao menos as curas para todas as doenças foram descobertas, ao passo que descobriram mais doenças para curar. Um mundo no qual os slogans das propagandas eram infalíveis. Um mundo autossuficiente, com pessoas que não precisam saber o significado da palavra necessidade, um mundo completo, modernizado, futurístico, inovador - ao menos inovou a minha dor. Tudo cheio, mas isso não foi o bastante para preencher o vazio que há nos espaços entre as palavras, ou na duração de um olhar, ou no vão que há entre esse cômodo e o que já houve no mundo. Coleciono uma história para fazer minha, pode ser a mais escrota que tiver, pois essa vivência mais que perfeita sem pretérito algum me enoja, e o tempo me inala enquanto derrete aquela vela.
Às vezes penso em me levantar, tomar um bom café forte, ir à banca de jornal e ver as catástrofes do dia, comprar um cigarro, descer a ladeira da rua Arduino e entrar no prédio de tijolos logo na esquina, onde poderia entrar sem me identificar pois “Não é cliente, mas já é de casa”; Esperaria o elevador por uns longos dois ou três minutos, até que o zelador venha arrastando os pés com seu sapato e sua alma desgastada e murmure em um tom oco e sem timbre que o elevador está novamente quebrado por causa dos arruaceiros-da-madrugada-ah-se-eu-pego-essas-pestes, então eu agradeceria com um aceno de cabeça, seguiria pelo corredor e subiria as escadas em caracol com certa pressa apenas para aumentar minha resistência para tonturas, algo que não dava muito certo, principalmente carregando o café; Chegando ao sexto andar, com uma iluminação digna de odes, andaria a passos largos, fazendo ranger os tacos gastos de madeira clara, e iria direto até a mesinha de canto checar as correspondências que nunca chegam e, em meu torpor, procuraria um lugar no qual pudesse me corresponder comigo diretamente, e procuraria um canto no qual os problemas se extinguissem por decreto. Então sentaria em uma escrivaninha de madeira rústica - sem verniz e com direito a farpas - apoiaria a cabeça nas mãos, os cotovelos na mesa, olharia para a janela, suspiraria profundamente desejando apenas voltar pra casa e pensar que tudo não passava de uma lembrança, um sonho persistente. Mas sei que não passa de um capítulo de um livro que li durante a juventude, Desconvidando a Aurora - o qual, por sinal, veio a ser o meu favorito, e o único restante de minha coleção, agora jogado embaixo do sofá.
Não há muito o que se sonhar quando não há muito o que ser. Não há muito o que saber quando não há muito o que perder. Mas agora reconheço, com o pesar dos que já não têm pelo que sofrer, que buracos não se tampam, devem ser preenchidos, e que histórias não devem ser contadas, devem ser vividas, tão voláteis, cítricas e melifluentes como a corrente elétrica acendendo as luzes de neon numa noite de outubro, na qual a única preocupação seria chegar a tempo em um bar para encontrar os amigos, os colegas e os sonhadores primaveris. Mesmo com essa convicção, alguns hábitos não se perdem tão facilmente, então me ponho a narrar, com a certeza dos astrônomos, sobre as miscelâneas esporádicas da inércia contemporânea, logrando que haja uma manhã de sol que tire o mundo da cama e o faça ver que o espetáculo continua, que ele não é uma escultura renascentista, em sua estática dolorosa e sua perfeição nauseabunda. Traremos machados e quebraremos todo o cimento, tudo o que há de concreto, todo o conceito e toda forma. Tudo que um dia foi esperado, mas que esperamos que não seja mais, para podermos apenas desejar de novo um pouco mais, um pouco menos, apenas para desejarmos um pouco. Tanta coisa para não se preocupar, e eu só queria não me dar por satisfeito. Tanta coisa para não se lembrar, e eu só queria uma dose de nostalgia, um motivo para não ter que dormir para poder sonhar.
Aquele outro que me habita aprendeu a conviver em modo automático do lado de fora dessa sala, apenas esperando minha chegada. Talvez um dia eu realmente venha a ser eu, apenas eu. Nesse dia irei, e muitos outros irão também, mover as pedras e os oráculos, chegando na base do que nos levou a ser o que somos, e chegar onde chegamos, deixando nossos chapéus no vestíbulo, sentando no balcão e pedindo uma média e uma dose de licor, apenas para adoçar. Ligaremos as tão saudosas e defasadas televisões, esperando o noticiário manipular catástrofes e errar vinhetas, fazendo com que tudo fosse o que deveria ser: um erro. E, enquanto esse dia não chegar, continuarei por aqui assistindo a cera endurecer como o sangue coagulando em veias entorpecidas. Continuarei protegendo minha pele, colocando-a do lado de dentro e minha alma fugitiva do lado de fora, e irei vivendo pelo avesso uma vida nem tão minha, nutrida de histórias mal contadas, de um mundo nem tão meu, na periferia da liberdade e da fantasia, vizinhas eloquentes numa mente tão vazia.
O amanhã logo irá chegar, trazendo mais um hoje saído do forno, para esfriar com a temperatura ambiente, com o marasmo do mormaço de final de tarde. A vela, já insuficiente, apagou. Encolho-me um pouco mais.
A campainha tocou.
Alguém se levanta e me conduz a porta.

Era o carteiro.