sexta-feira, 1 de março de 2013
Embalagem
Descalço, no portão, espreitando céu afora. Será que vai chover? Tomara que não. Chegar ensopado no primeiro dia no trabalho novo não deve pegar bem… Vai que eles pensam que é suor? Brinquei comigo mesmo. Só eu pra aturar minhas piadas infames. Nervosismo aumenta. Volto pra dentro. Tomo um banho demorado o suficiente pra me lavar direito mas rápido o suficiente pra não começar a divagar. Próximo passo: Preparar um café. Ou tomo no caminho? Mas se não for forte o bastante é bem capaz de eu pegar no sono no meio da reunião caso meu chefe seja entendiante… Melhor eu mesmo fazer. De olho no relógio, falta ainda 1h23min pra nova vida, momento de desfrutar meus últimos minutos como desempregado. Pra isso faço o que fiz de melhor durante os ultimos 7 meses: Nada. Esperei assim a cafeteira apitar. Ok, talvez o chefe não seja chato, mas será que esse pessoal de escritório é demente que nem aqueles que passam nos seriados de comédia? Pra fazerem tanta piada tem que ter algum motivo. Café forte e levemente adocicado, nada enjoativo demais, já basta a voz da minha secretária eletrônica e da apresentadora do telejornal para me deixar nauseado. Passo margarina numa fatia de pão, engulo o café por cima e corro para dar os retoques finais e alcançar o ônibus em 15 minutos. Talvez eu esteja exagerando, pode ser que seja a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos. Merda, o ônibus não parou. Lá vou eu correr atrás. Ufa, alcancei. Agora encosto a cabeça no vidro e sinto a vibração do motor. O motor que dá vida a máquina. Procuro pensar no meu motor. Sem combustível. O que é que estou fazendo nessa cidade? Parou no ponto em que eu tinha que descer. Não desci. Me deixei levar até o terminal. Entrei em outro ônibus e fiz o mesmo. Depois em outro, outro, outro… Até que não tivesse noção de onde estava, até que tudo estivesse certo. Até que eu me consertasse. Piada. Mas ali estava, sem ninguém, sem nada de mais além de uma mochila, as chaves de uma casa, e um celular descarregado. Não me importava mais. Nunca dei a mínima mesmo. Não voltarei, não voltarei, não voltarei. Peguei a porra do ônibus de volta e quando me dei por si estava na porta de casa novamente. E então me dei conta de que se pode tentar romper os moldes, quebrar a casca, mas o conteúdo já foi danificado.
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