domingo, 21 de julho de 2013

Miopia

Sempre imagino olhos alados. É uma visão que tenho sempre que vejo alguém com o olhar perdido em um ponto qualquer. Geralmente olham fixo para baixo ou para cima, sempre para sua esquerda.
Nesses momentos sei que o corpo e a mente se desligaram, e os olhos estão vendo lembranças ou criando memórias pré póstumas, ou seja, aquelas que poderão acontecer mas provavelmente não irão. Estas são memórias que morrem ao nascer, mas as enterramos com louvor em nossa mente, tornando-as tão verdadeira quanto seria a realidade enfadonha.
Mas sei que essas pessoas estão paradas ali por que não podem ir para onde queriam estar, e o corpo torna-se fardo, por isso os olhos levam a mente e deixam a carne repousar por lá.
Creio que cada um vai para seu próprio mundo. Sim, cada um tem um mundo próprio, no qual seus desejos e problemas não são egoístas, e seus medos não são limites. Um mundo no qual elas vivem e gostam de estar por lá, mesmo que em liberdade clandestina.
Às vezes basta um ressoar de voz, um estrondo ou um movimento brusco para elas voltarem de viagem. Pergunto-me como os olhos sabem a hora de voltar. Tenho a impressão de que muitas vezes não voltam, por isso existem pessoas que não enxergam o que outras consideram óbvio, elas estão preocupadas em enxergar o mundo além de si, além do real, além da tal verdade. Como diria Manoel de Barros, "é preciso transver o mundo". Por isso não confio em quem enxerga bem: os olhos da cara não devem corresponder aos da alma. A imaginação transcende a vista. Mais miopia, por favor.


terça-feira, 16 de julho de 2013

Limpeza de Quarto

Estava a uma longa e saudável distância de mim e de meu mundo. Sei que não foi de súbito, me afastei aos poucos. Porque quis, talvez. Porque devesse, com certeza. Alguns diriam que viajei, outros nem notariam minha ausência. Mas fui, por um bom tempo, tentar reaprender a teoria do caos sem ter de conspirar contra mim mesma. Agora estou voltando, e sei que a casa está igual. 
Procurei uma forma de enredar minha trama sem ter que usar aquelas linhas desgastadas, estão opacas e sem cor. Quero uma rede bem bonita, daquelas coloridas e bem grandes, na qual possa descansar minha mente e meus problemas. Quero uma rede que entrelace tudo o que sou, afinal, tudo se conecta em algum ponto. Espero que minha rede tenha força para suportar o peso da minha consciência fatigada, e que também possa balançar junto com o vento nas tardes de inverno. Quero embalar nesse balanço, e aproveitarei para embalar tudo o que já me é desnecessário, algumas coisas que com o tempo perderam o sentido, e outras as quais guardei para encontrar um sentido que não lhes eram cabíveis, ao menos para mim; estavam ocupando muito espaço na gaveta.

Desembaracei todas aquelas linhas velhas, tinham muitos nós. Longe de mim, vi o quanto de poeira acumulou aquele gaveteiro, não era de se surpreender que me tornei alérgica a lembranças. Cansei daquele espaço minúsculo, não cabia nem minha bagunça. Preciso de espaço para me desorganizar. A nova rede ficará perfeita na varanda. Eu sei que não tinha uma, mas mandei demolir a parede que me separava de mim.
Não suportarei mais a ideia de fechar meus anseios, devo mantê-los a vista, para não esquecer de sonhar mais alto do que eles. O que empacotei mando para a reciclagem, não quero nada mastigado ou em migalhas, só entrará aqui o que puder inteirar-se, nem que seja em seu próprio caos. Então deitarei em minha rede colorida, suspirarei em alívio e brincarei com os fios até que a única bagunça seja meu cabelo embaraçado.