Sempre
imagino olhos alados. É uma visão que tenho sempre que vejo alguém
com o olhar perdido em um ponto qualquer. Geralmente olham fixo para
baixo ou para cima, sempre para sua esquerda.
Nesses
momentos sei que o corpo e a mente se desligaram, e os olhos estão
vendo lembranças ou criando memórias pré póstumas, ou seja,
aquelas que poderão acontecer mas provavelmente não irão. Estas
são memórias que morrem ao nascer, mas as enterramos com louvor em
nossa mente, tornando-as tão verdadeira quanto seria a realidade
enfadonha.
Mas
sei que essas pessoas estão paradas ali por que não podem ir para
onde queriam estar, e o corpo torna-se fardo, por isso os olhos levam
a mente e deixam a carne repousar por lá.
Creio
que cada um vai para seu próprio mundo. Sim, cada um tem um mundo
próprio, no qual seus desejos e problemas não são egoístas, e
seus medos não são limites. Um mundo no qual elas vivem e gostam de
estar por lá, mesmo que em liberdade clandestina.
Às
vezes basta um ressoar de voz, um estrondo ou um movimento brusco
para elas voltarem de viagem. Pergunto-me como os olhos sabem a hora
de voltar. Tenho a impressão de que muitas vezes não voltam, por
isso existem pessoas que não enxergam o que outras consideram óbvio,
elas estão preocupadas em enxergar o mundo além de si, além do
real, além da tal verdade. Como diria Manoel de Barros, "é
preciso transver o mundo". Por
isso não confio em quem enxerga bem: os olhos da cara não devem
corresponder aos da alma. A imaginação transcende a vista. Mais
miopia, por favor.

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