terça-feira, 27 de agosto de 2013

Inércia

Viu
não sorriu
virou
não partiu
olhou
e sumiu
não deixou
nem seguiu

pensou
e sentiu
vacilou
mas saiu
não voltou
nem parou
nem mentiu
foi

é
e será
mas não sabe
que não é 
mais o que 
diz ser
pairou
caiu
cavou
a cova profunda
e enterrou
nos versos
os verbos
parou 
.
.
.
e viu

domingo, 25 de agosto de 2013

Hipocritamente correto: Os subterrâneos da razão

Impõem seus medos como dogmas
inserem seus traumas como crença;
Usurpam seus direitos como prova 
e, mesmo sem crime, você cumpre a sentença

Diretamente indireto
procuram fazer com que não se pareça;
- O que é por decreto não o deixará de ser 
caso alguém desapareça

Os corpos nus no chão, arranhados pelo frio e pela escória. 
Tapam bocas, olhos, mente e dignidade. 
Abafam os barulhos e contém as lágrimas;
Já não há mais água: 
Aquilo que escorre por baixo do pano é humanidade

(Pensamento escrito após a leitura do livro Holocausto Brasileiro - Daniela Arbex)

domingo, 18 de agosto de 2013

A atemporalidade da arte e sua cronologia

  Se a arte se faz, por si só, ferramenta e obra de algo - concreto ou abstrato - que deve eternizar-se, por que dividi-la em movimentos, épocas ou contextos? A arte é conceito e resultado, é a auto explicação que implica em desaprender o que não se sabe, para poder ser olhada com outros olhos; não necessariamente os do autor, mas sim com novos olhos, com novos pensamentos, às vezes mais arcaicos que os antigos, às vezes além da arte, o que chamo de arte sobre arte (Não, o conceito de arte sobre arte provavelmente não é esse, mas é assim que o denomino).
  O que seria interessante é procurar na arte o que ela não mostra, e nos veremos todos em um grande vazio, pois ela implica na existência do artista, da obra e da existência. Uma obra é idealizada a partir de momentos, tanto conturbados quanto ociosos, porém nunca comprovados como sendo consecutivos. Oras, se o próprio artista, ao idealizar e ao realizar uma obra, seja ela qual for, não utilizou apenas o que sentia ou queria expressar no momento da composição, porque devem classificá-la e encaixotá-la com padrões e semelhanças exteriorizados e abordados por outros artistas, os quais dizem que "compõem" um mesmo movimento por diversos critérios, primeiramente, estereotipados e meramente similares? Quem sabe o que se passou na cabeça de cada um ao exprimir a arte, como saber se a obra representa o que os críticos dizem, o que os artistas filosofam, ou o que os espectadores querem interpretar? Como saber se o que a arte apresenta é o que ela representa?
  A arte, em si, tem vida. Tem significado, e é completa por si só; mas só será assim considerada quando interpretada? E, caso seja mal interpretada, será lixo? Lixo não é arte? Arte não é lixo? Movimentos, técnicas, e pontos de vista, tudo tão relativo e temporário, e a arte deve fazer-se eternamente aquilo que sempre foi?
  Buscam eternizar, em uma obra, sentimentos e pensamentos que não podem ser guardados para sempre, pois, afinal, se algo é real é temporário. Se os conceitos mudam, os processos e resultados também o fazem. O eterno é um ideal, uma utopia, um anseio. As obras devem guardar o que o artista teme perder ou o que precisa esconder? A arte é amorfa, e o ponto de vista relativo destrói e reconstrói a mesma.

Arte sobre arte
sobram artistas e falta arte.
Os olhos transformam a vista,
mas parece que faz parte

  Seria, enfim, a arte o pó que trancafiam em ampulhetas, pragmático e preciso, ou a areia na beira do mar, exposta ao vento, ao tempo e ao mundo?

sábado, 17 de agosto de 2013

A Solidão de Gabriel

(100 Years of  Solitude - Maria Shishova)


No entanto, ele sempre soube - e sempre saberá - que nada afasta mais a realidade de uma idealização do que as palavras.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Entre o ser e o parecer

   Antes de tudo, uma história que busca transmitir o que as palavras mentem. Busca transmitir a mentira em si, com suas facetas e disfarces, tomando por base a arte cênica, uma desculpa usada para Elisabeth Vogler multifacetar seu medo, até que, por cansaço ou por mais medo, decidiu calar-se e parar de se mover, a fim de que seus pensamentos ficassem guardados somente para si. Mais um papel, com uma dor verdadeira, mas torna-se apenas mais uma vez atriz, encenando sua própria dor longe de si. Vestiu tantas máscaras e tantas almas que perdeu a sua no caminho e, para lidar com seu próprio sofrimento, tem de descobrir primeiramente onde a protagonista se encontra. Toma o silêncio como mecanismo de fuga, mas ao longo da trama, e da vida, descobre-se que não há palavras que mintam ou caretas que enganam, tudo faz parte de uma questão de aparentar ser o que não se pode ser. 
   A médica sabe disso, o deixa claro desde o início, após colocar a enfermeira Alma para cuidar da atriz. Alma, a qual no início apenas ajudaria Elisabeth, acaba tornando-se objeto de análise, enquanto desorientada e à deriva, ao ver sua vida premeditada e organizada, sabendo que além disso quer algo a mais, mesmo sem largar mão do que terá. Abre diálogo sobre ser mais de uma pessoa, sobre a impossibilidade de manter-se a mesma todo o tempo. Elisabeth sente pena, pergunto-me se pena de Alma ou dela mesma. Uma analisa a outra, e o fato de Alma ser mais do que aparenta e da atriz aparentar ser algo além de si, ambas sabem o quão iguais podem ser, ou são, quando se põe em vista o fato de que o medo não é desilusão e, sim, realidade. Mas o que deveria ser considerado real em se tratando de uma ficção cotidiana, trama e vida juntando-se?

"Cada tom de voz, uma mentira. 
Cada gesto, falso. 
Cada sorriso, uma careta."

   Termino essa análise com um looping deveras clichê, porém não menos importante. Até que ponto o real é irreal e o que é mentira é ficção? Ao vestirmos uma máscara, um personagem ou um contexto, como pode-se afirmar que encenamos o que dizemos ser, sendo que nós mesmos não sabemos o que realmente somos?