hoje
constatei que o
inverso
também é
uma forma de
rimar
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
O mundo orquestrado em dó menor
enquanto corremos sem
pressa
exaustos de sonhos
pressa
exaustos de sonhos
olhamos o céu
sem nos preocupar
com a chuva
ou com o que
sem nos preocupar
com a chuva
ou com o que
não virá
de noite tiramos os sapatos
e sentamos na beirada do que
será
e com os olhos caídos
vamos decidindo e
de noite tiramos os sapatos
e sentamos na beirada do que
será
e com os olhos caídos
vamos decidindo e
desconstruindo;
rindo
sem soluçar
e, enquanto o café
esfria
na pia
rindo
sem soluçar
e, enquanto o café
esfria
na pia
a tal da melancolia
esquiva
e esbarra nas
muralhas do
mundo
orquestrado em
dó menor
esquiva
e esbarra nas
muralhas do
mundo
orquestrado em
dó menor
Esboço sobre a lucidez
Essa minha alma anarquista
Deixou meu corpo em
Deixou meu corpo em
alerta
Derrubando meu sistema
Nervoso
Nervoso
Central
Enquanto minha mente,
em contradição,
reafirmou os estatutos
dos bons costumes
e da
moral
Apenas pelo
deleite e
pelo delito
de se ter mais um
obstáculo para
superar
superar
no
final
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Umbigo
A simbiose
esotérica
das cadeias de
constelações
e
constatações
faz com que
me pergunte
se as dimensões do
umbigo
do
universo
realmente são
maiores
do que as respostas
que ele
poderia
dar
esotérica
das cadeias de
constelações
e
constatações
faz com que
me pergunte
se as dimensões do
umbigo
do
universo
realmente são
maiores
do que as respostas
que ele
poderia
dar
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Rasgue antes de ler (Parte II)
Dizem que quando estamos recobrando a consciência os sons se assimilam em nossa cabeça mais rápido do que as imagens, e demoramos para nos adaptarmos com a continuidade dinâmica dos fatos. Não acho que seja muito diferente de quando estamos perdendo a cabeça. A diferença é que são coisas muito distintas - obviamente -, mas apenas para quem tá observando de fora. Eu já acho que dá na mesma. E a estática continua interferindo em meus sentidos enquanto tento abrir os olhos, mesmo não tendo muito certeza se eles realmente estão fechados.
Enxofre predomina meus sentidos. Fósforos. Alguém tá fumando meu tabaco, era só o que me faltava. Depois de ter passado mal alguém deve tá querendo curtir um barato e ficar que nem eu. Mas já que não sei como estou, não posso contestar. E, bem, eu faria o mesmo.
Foi um esforço tremendo abrir os olhos, e forçando a vista pude ver, não para minha surpresa, Henrique tragando um cigarro e, enquanto girava uma baqueta na mão, observava a vista plana da televisão.
Tentei achar um timbre decente no meio das cordas vocais e disse:
- Larga ela que não é minha! Tenho lá cara de quem tem coordenação motora?
Ele virou de sobressalto e, num único movimento, derrubou a baqueta e queimou a calça com o cigarro enquanto tentava não perder o equilíbrio com o susto:
- Porra, Riz! Que susto que cê me deu! Meu jeans, que meerda... Não, que se dane! Tava surtando aqui, achando que ia ter que te levar pra um hospital, mas sem convênio desencanei. Que que te deu? Quer dizer, você tá melhor?
A sensação de um esquadrão de perguntas sobrevoando minha cabeça só me fez querer fingir que tava capotada ainda, e foi o que realmente pensei em fazer. Mas vi, de relance, um papel branco se destacando entre latas de cerveja amassadas e embalagens de junk food espalhadas no chão da sala. Então me lembrei. Não, não sei o que significava me lembrar da carta, mas me fez perceber que era hora de largar mão de pegar atalho no inconsciente e ir na contramão da realidade. Antes que o Rik acabasse com meu estoque e eu esgotasse minha consciência.
- Pô, Rik, foi mal mesmo, perdão. Mas... não me enche de pergunta não, por favor! Ainda não entendi o que rolou, mas certeza que pode ter algo a ver o tabaco que cê tá fumando aí. Sabe, daqueles que o Sérgio trouxe... Me ajuda aqui a levantar? Minhas pernas tão formigando.
E estavam mesmo. Mas o pior foi quando levantei a cabeça. Duendes devem ter se aproveitado da minha inconsciência e entraram na minha cabeça pra fazer uma orgia com as minhas faculdades mentais, ao som de Sidney Magal no volume máximo. Resolvi que era melhor apenas ficar sentada, já tava no sofá mesmo.
- Vou pegar uma água pra ti. Tá com cara de quem vai chamar o Hugo de novo.
Chamar o Hugo, quem fala assim?
- Chamar o Hugo? Quem fala assim?
Ele deu uma risada e disse, sem sarcasmo algum:
- Que bom que cê tá aqui pra me dar coice! Sabe o preço de hospital veterinário pra quem não tem convênio?
Trouxe a água e, sentando ao meu lado, tirou os cabelos rebeldes da minha cara delicadamente, com o cuidado que só os livres da hipocrisia de dar lições de moral sabem ter:
- Fiquei preocupado, Riz. Sério mesmo. O porteiro saiu mais branco que o papel que trouxe pra você, tivemos que convencê-lo, ou melhor, quase ajoelhar e jurar que não te dopamos nem nada do gênero. O cara surtou. Faltou um pouquinho só pra ele chamar a polícia. Acredita?
Ai, o papel! Não é que já tinha esquecido novamente? Como eu disse, a continuidade dos fatos é perturbadora. O sinal da minha conexão com o mundo ao meu redor e os fatos que me rodeiam estava fraco demais:
- Mas, vem cá, ninguém abriu o envelope nem nada, né?
- E por que alguém faria isso?
Bebi minha água e acabei não respondendo. Beijei Rik, deitei em seu colo e fechei os olhos novamente.
Os duendes continuavam lá, em ritmo de festa.
Enxofre predomina meus sentidos. Fósforos. Alguém tá fumando meu tabaco, era só o que me faltava. Depois de ter passado mal alguém deve tá querendo curtir um barato e ficar que nem eu. Mas já que não sei como estou, não posso contestar. E, bem, eu faria o mesmo.
Foi um esforço tremendo abrir os olhos, e forçando a vista pude ver, não para minha surpresa, Henrique tragando um cigarro e, enquanto girava uma baqueta na mão, observava a vista plana da televisão.
Tentei achar um timbre decente no meio das cordas vocais e disse:
- Larga ela que não é minha! Tenho lá cara de quem tem coordenação motora?
Ele virou de sobressalto e, num único movimento, derrubou a baqueta e queimou a calça com o cigarro enquanto tentava não perder o equilíbrio com o susto:
- Porra, Riz! Que susto que cê me deu! Meu jeans, que meerda... Não, que se dane! Tava surtando aqui, achando que ia ter que te levar pra um hospital, mas sem convênio desencanei. Que que te deu? Quer dizer, você tá melhor?
A sensação de um esquadrão de perguntas sobrevoando minha cabeça só me fez querer fingir que tava capotada ainda, e foi o que realmente pensei em fazer. Mas vi, de relance, um papel branco se destacando entre latas de cerveja amassadas e embalagens de junk food espalhadas no chão da sala. Então me lembrei. Não, não sei o que significava me lembrar da carta, mas me fez perceber que era hora de largar mão de pegar atalho no inconsciente e ir na contramão da realidade. Antes que o Rik acabasse com meu estoque e eu esgotasse minha consciência.
- Pô, Rik, foi mal mesmo, perdão. Mas... não me enche de pergunta não, por favor! Ainda não entendi o que rolou, mas certeza que pode ter algo a ver o tabaco que cê tá fumando aí. Sabe, daqueles que o Sérgio trouxe... Me ajuda aqui a levantar? Minhas pernas tão formigando.
E estavam mesmo. Mas o pior foi quando levantei a cabeça. Duendes devem ter se aproveitado da minha inconsciência e entraram na minha cabeça pra fazer uma orgia com as minhas faculdades mentais, ao som de Sidney Magal no volume máximo. Resolvi que era melhor apenas ficar sentada, já tava no sofá mesmo.
- Vou pegar uma água pra ti. Tá com cara de quem vai chamar o Hugo de novo.
Chamar o Hugo, quem fala assim?
- Chamar o Hugo? Quem fala assim?
Ele deu uma risada e disse, sem sarcasmo algum:
- Que bom que cê tá aqui pra me dar coice! Sabe o preço de hospital veterinário pra quem não tem convênio?
Trouxe a água e, sentando ao meu lado, tirou os cabelos rebeldes da minha cara delicadamente, com o cuidado que só os livres da hipocrisia de dar lições de moral sabem ter:
- Fiquei preocupado, Riz. Sério mesmo. O porteiro saiu mais branco que o papel que trouxe pra você, tivemos que convencê-lo, ou melhor, quase ajoelhar e jurar que não te dopamos nem nada do gênero. O cara surtou. Faltou um pouquinho só pra ele chamar a polícia. Acredita?
Ai, o papel! Não é que já tinha esquecido novamente? Como eu disse, a continuidade dos fatos é perturbadora. O sinal da minha conexão com o mundo ao meu redor e os fatos que me rodeiam estava fraco demais:
- Mas, vem cá, ninguém abriu o envelope nem nada, né?
- E por que alguém faria isso?
Bebi minha água e acabei não respondendo. Beijei Rik, deitei em seu colo e fechei os olhos novamente.
Os duendes continuavam lá, em ritmo de festa.
Rasgue antes de ler (Parte I)
Faltava apenas um valete para completar meu royal flush quando recebi aquela carta. O porteiro, ofegante e meio trôpego, tocou a campainha enquanto ajeitava a camiseta amarrotada pela correria do dia. Já era fim de tarde e o sol, desapressado, continuava a brincar de meio dia. Larguei as cartas na mesa com cautela e fui descalça abrir a porta, temerosa de que o mormaço do corredor entrasse em meu apartamento.
- Boa tarde, seu Luís, ainda na labuta?
- Sim, dona Clarice. A gente pensa que o tempo até parou com esse solzão aí. Não dá descanso, não.
- Nem me fale. Por aqui não tá muito diferente, também. Mas no que posso ajudá-lo?
Seu Luís, ainda procurando ar entre as palavras, me estendeu um envelope branco, meio amassado, como se dobrado várias vezes e colocado dentro do bolso traseiro de uma calça por um longo período:
- Chegou pra senhora. Falaram que era urgente. E a senhora sabe como eu sou, dona Clarice. Se falou que tem urgência, não perco tempo nenhum, é na hora.
- Obrigada, mas... o carteiro vem de domingo?
- Foi isso mesmo que estranhei, dona. Não foi o carteiro que entregou. Veio uma moça e deixou. Encantadora. Mas meio estranha. Não diria assustada, acho que preocupad... Não, me fugiu a palavra, mas é uma dessas coisas que a gente sente só de olhar a pessoa nos olhos. Tenho esse dom de perceber isso nas pessoas,sab...? Dona Clarice, a senhora parece meio pálida, tá tudo bem?
Barulho de estática. Meus olhos emudeceram. Deve ter sido isso. O fato é que uma nuvem subiu do meu estômago, aqueceu minhas entranhas, esfriou meu suor, e não sei se o whisky ou o tabaco que meu primo trouxe me fez apenas ouvir o porteiro, aparentemente preocupado comigo, porém sem vê-lo. Eu iria pegar a carta e agradecê-lo sem mais perguntas. Eu iria sentar, abrir e verificar o assunto e o remetente. Eu iria fingir que sei de que porra ele tá falando. Mas, em vez disso, resolvi vomitar no tapete da porta e perder a consciência, não sem antes cair de joelhos e bater com a cabeça no batente da porta. Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
---
Do outro lado da rua tinha uma sorveteria. Ela se sentou num banco de madeira na parte externa do estabelecimento e se pôs a observar a paisagem, fixando-se num ponto, ou melhor, numa janela específica. Nono andar, terceira janela da esquerda para a direita. Suspirou e, calmamente, mergulhou os olhos no cardápio, não sem antes dar uma última olhada, sorrindo de canto.
- Boa tarde, seu Luís, ainda na labuta?
- Sim, dona Clarice. A gente pensa que o tempo até parou com esse solzão aí. Não dá descanso, não.
- Nem me fale. Por aqui não tá muito diferente, também. Mas no que posso ajudá-lo?
Seu Luís, ainda procurando ar entre as palavras, me estendeu um envelope branco, meio amassado, como se dobrado várias vezes e colocado dentro do bolso traseiro de uma calça por um longo período:
- Chegou pra senhora. Falaram que era urgente. E a senhora sabe como eu sou, dona Clarice. Se falou que tem urgência, não perco tempo nenhum, é na hora.
- Obrigada, mas... o carteiro vem de domingo?
- Foi isso mesmo que estranhei, dona. Não foi o carteiro que entregou. Veio uma moça e deixou. Encantadora. Mas meio estranha. Não diria assustada, acho que preocupad... Não, me fugiu a palavra, mas é uma dessas coisas que a gente sente só de olhar a pessoa nos olhos. Tenho esse dom de perceber isso nas pessoas,sab...? Dona Clarice, a senhora parece meio pálida, tá tudo bem?
Barulho de estática. Meus olhos emudeceram. Deve ter sido isso. O fato é que uma nuvem subiu do meu estômago, aqueceu minhas entranhas, esfriou meu suor, e não sei se o whisky ou o tabaco que meu primo trouxe me fez apenas ouvir o porteiro, aparentemente preocupado comigo, porém sem vê-lo. Eu iria pegar a carta e agradecê-lo sem mais perguntas. Eu iria sentar, abrir e verificar o assunto e o remetente. Eu iria fingir que sei de que porra ele tá falando. Mas, em vez disso, resolvi vomitar no tapete da porta e perder a consciência, não sem antes cair de joelhos e bater com a cabeça no batente da porta. Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
---
Do outro lado da rua tinha uma sorveteria. Ela se sentou num banco de madeira na parte externa do estabelecimento e se pôs a observar a paisagem, fixando-se num ponto, ou melhor, numa janela específica. Nono andar, terceira janela da esquerda para a direita. Suspirou e, calmamente, mergulhou os olhos no cardápio, não sem antes dar uma última olhada, sorrindo de canto.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
sábado, 4 de outubro de 2014
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