terça-feira, 21 de outubro de 2014

Rasgue antes de ler (Parte I)

     Faltava apenas um valete para completar meu royal flush quando recebi aquela carta. O porteiro, ofegante e meio trôpego, tocou a campainha enquanto ajeitava a camiseta amarrotada pela correria do dia. Já era fim de tarde e o sol, desapressado, continuava a brincar de meio dia. Larguei as cartas na mesa com cautela e fui descalça abrir a porta, temerosa de que o mormaço do corredor entrasse em meu apartamento.
     - Boa tarde, seu Luís, ainda na labuta?
     - Sim, dona Clarice. A gente pensa que o tempo até parou com esse solzão aí. Não dá descanso, não.
     - Nem me fale. Por aqui não tá muito diferente, também. Mas no que posso ajudá-lo?
     Seu Luís, ainda procurando ar entre as palavras, me estendeu um envelope branco, meio amassado, como se dobrado várias vezes e colocado dentro do bolso traseiro de uma calça por um longo período:
     - Chegou pra senhora. Falaram que era urgente. E a senhora sabe como eu sou, dona Clarice. Se falou que tem urgência, não perco tempo nenhum, é na hora.
     - Obrigada, mas... o carteiro vem de domingo?
     - Foi isso mesmo que estranhei, dona. Não foi o carteiro que entregou. Veio uma moça e deixou. Encantadora. Mas meio estranha. Não diria assustada, acho que preocupad... Não, me fugiu a palavra, mas é uma dessas coisas que a gente sente só de olhar a pessoa nos olhos. Tenho esse dom de perceber isso nas pessoas,sab...? Dona Clarice, a senhora parece meio pálida, tá tudo bem?
      Barulho de estática. Meus olhos emudeceram. Deve ter sido isso. O fato é que uma nuvem subiu do meu estômago, aqueceu minhas entranhas, esfriou meu suor, e não sei se o whisky ou o tabaco que meu primo trouxe me fez apenas ouvir o porteiro, aparentemente preocupado comigo, porém sem vê-lo. Eu iria pegar a carta e agradecê-lo sem mais perguntas. Eu iria sentar, abrir e verificar o assunto e o remetente. Eu iria fingir que sei de que porra ele tá falando. Mas, em vez disso, resolvi vomitar no tapete da porta e perder a consciência, não sem antes cair de joelhos e bater com a cabeça no batente da porta. Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

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     Do outro lado da rua tinha uma sorveteria. Ela se sentou num banco de madeira na parte externa do estabelecimento e se pôs a observar a paisagem, fixando-se num ponto, ou melhor, numa janela específica. Nono andar, terceira janela da esquerda para a direita. Suspirou e, calmamente, mergulhou os olhos no cardápio, não sem antes dar uma última olhada, sorrindo de canto. 

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