terça-feira, 21 de outubro de 2014

Rasgue antes de ler (Parte II)

     Dizem que quando estamos recobrando a consciência os sons se assimilam em nossa cabeça mais rápido do que as imagens, e demoramos para nos adaptarmos com a continuidade dinâmica dos fatos. Não acho que seja muito diferente de quando estamos perdendo a cabeça. A diferença é que são coisas muito distintas - obviamente -, mas apenas para quem tá observando de fora. Eu já acho que dá na mesma. E a estática continua interferindo em meus sentidos enquanto tento abrir os olhos, mesmo não tendo muito certeza se eles realmente estão fechados.
     Enxofre predomina meus sentidos. Fósforos. Alguém tá fumando meu tabaco, era só o que me faltava. Depois de ter passado mal alguém deve tá querendo curtir um barato e ficar que nem eu. Mas já que não sei como estou, não posso contestar. E, bem, eu faria o mesmo. 
     Foi um esforço tremendo abrir os olhos, e forçando a vista pude ver, não para minha surpresa, Henrique tragando um cigarro e, enquanto girava uma baqueta na mão, observava a vista plana da televisão.
     Tentei achar um timbre decente no meio das cordas vocais e disse:
     - Larga ela que não é minha! Tenho lá cara de quem tem coordenação motora?
     Ele virou de sobressalto e, num único movimento, derrubou a baqueta e queimou a calça com o cigarro enquanto tentava não perder o equilíbrio com o susto:
     - Porra, Riz! Que susto que cê me deu! Meu jeans, que meerda... Não, que se dane! Tava surtando aqui, achando que ia ter que te levar pra um hospital, mas sem convênio desencanei. Que que te deu? Quer dizer, você tá melhor?
     A sensação de um esquadrão de perguntas sobrevoando minha cabeça só me fez querer fingir que tava capotada ainda, e foi o que realmente pensei em fazer. Mas vi, de relance, um papel branco se destacando entre latas de cerveja amassadas e embalagens de junk food espalhadas no chão da sala. Então me lembrei. Não, não sei o que significava me lembrar da carta, mas me fez perceber que era hora de largar mão de pegar atalho no inconsciente e ir na contramão da realidade. Antes que o Rik acabasse com meu estoque e eu esgotasse minha consciência.
     - Pô, Rik, foi mal mesmo, perdão. Mas... não me enche de pergunta não, por favor! Ainda não entendi o que rolou, mas certeza que pode ter algo a ver o tabaco que cê tá fumando aí. Sabe, daqueles que o Sérgio trouxe... Me ajuda aqui a levantar? Minhas pernas tão formigando.
     E estavam mesmo. Mas o pior foi quando levantei a cabeça. Duendes devem ter se aproveitado da minha inconsciência e entraram na minha cabeça pra fazer uma orgia com as minhas faculdades mentais, ao som de Sidney Magal no volume máximo. Resolvi que era melhor apenas ficar sentada, já tava no sofá mesmo.
     - Vou pegar uma água pra ti. Tá com cara de quem vai chamar o Hugo de novo.
     Chamar o Hugo, quem fala assim? 
     - Chamar o Hugo? Quem fala assim? 
     Ele deu uma risada e disse, sem sarcasmo algum:
     - Que bom que cê tá aqui pra me dar coice! Sabe o preço de hospital veterinário pra quem não tem convênio?
     Trouxe a água e, sentando ao meu lado, tirou os cabelos rebeldes da minha cara delicadamente, com o cuidado que só os livres da hipocrisia de dar lições de moral sabem ter:
     - Fiquei preocupado, Riz. Sério mesmo. O porteiro saiu mais branco que o papel que trouxe pra você, tivemos que convencê-lo, ou melhor, quase ajoelhar e jurar que não te dopamos nem nada do gênero. O cara surtou. Faltou um pouquinho só pra ele chamar a polícia. Acredita?
     Ai, o papel! Não é que já tinha esquecido novamente? Como eu disse, a continuidade dos fatos é perturbadora. O sinal da minha conexão com o mundo ao meu redor e os fatos que me rodeiam estava fraco demais:
     - Mas, vem cá, ninguém abriu o envelope nem nada, né?
     - E por que alguém faria isso?
     Bebi minha água e acabei não respondendo. Beijei Rik, deitei em seu colo e fechei os olhos novamente. 
     Os duendes continuavam lá, em ritmo de festa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário