segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Caleidoscópio

Confundes portas fechadas
com muros de
concreto

Conjurando seus temores
nesse vasto
corredor

Não vês mil
universos
comprimidos 
pelas
frestas?

Não vês que és
remédio
para a própria
dor?




segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Presente

A única coisa 
que jamais veremos
nos livros
é o presente:

Ele nos
embala
enquanto
lemos a
dedicatória

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Citação

Nem todas 
as aspas do
mundo
hão de contornar
as margens
de tudo que
temos a 
dizer,

mas não falamos

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O hábito e o arbitrário a.k.a O mágico e o magistrado

A distância, vista de qualquer âmbito ou ângulo, consegue distorcer mais os fatos e as lembranças do que um advogado.

(Trecho de um conto meu - não publicado - escrito no começo do ano, mas que recordei hoje devido ao caso de um certo magistrado, e pensei em um final alternativo para o mesmo: 

Mas não mais do que um juiz. Porque juiz é deus.)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O mundo orquestrado em dó menor

enquanto corremos sem
pressa
exaustos de sonhos
olhamos o céu
sem nos preocupar
com a chuva
ou com o que
não virá

de noite tiramos os sapatos
e sentamos na beirada do que
será
e com os olhos caídos
vamos decidindo e
desconstruindo;
rindo
sem soluçar

e, enquanto o café
esfria
na pia
a tal da melancolia
esquiva
e esbarra nas
muralhas do
mundo 

orquestrado em
dó menor

Esboço sobre a lucidez

Essa minha alma anarquista
Deixou meu corpo em
alerta
Derrubando meu sistema
Nervoso
Central

Enquanto minha mente,
em contradição,
reafirmou os estatutos
dos bons costumes
e da
moral

Apenas pelo
deleite e
pelo delito
de se ter mais um
obstáculo para
superar
no
final

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Umbigo

A simbiose
esotérica
das cadeias de
constelações
e
constatações
faz com que
me pergunte
se as dimensões do
umbigo
do
universo
realmente são
maiores
do que as respostas
que ele
poderia
dar

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Rasgue antes de ler (Parte II)

     Dizem que quando estamos recobrando a consciência os sons se assimilam em nossa cabeça mais rápido do que as imagens, e demoramos para nos adaptarmos com a continuidade dinâmica dos fatos. Não acho que seja muito diferente de quando estamos perdendo a cabeça. A diferença é que são coisas muito distintas - obviamente -, mas apenas para quem tá observando de fora. Eu já acho que dá na mesma. E a estática continua interferindo em meus sentidos enquanto tento abrir os olhos, mesmo não tendo muito certeza se eles realmente estão fechados.
     Enxofre predomina meus sentidos. Fósforos. Alguém tá fumando meu tabaco, era só o que me faltava. Depois de ter passado mal alguém deve tá querendo curtir um barato e ficar que nem eu. Mas já que não sei como estou, não posso contestar. E, bem, eu faria o mesmo. 
     Foi um esforço tremendo abrir os olhos, e forçando a vista pude ver, não para minha surpresa, Henrique tragando um cigarro e, enquanto girava uma baqueta na mão, observava a vista plana da televisão.
     Tentei achar um timbre decente no meio das cordas vocais e disse:
     - Larga ela que não é minha! Tenho lá cara de quem tem coordenação motora?
     Ele virou de sobressalto e, num único movimento, derrubou a baqueta e queimou a calça com o cigarro enquanto tentava não perder o equilíbrio com o susto:
     - Porra, Riz! Que susto que cê me deu! Meu jeans, que meerda... Não, que se dane! Tava surtando aqui, achando que ia ter que te levar pra um hospital, mas sem convênio desencanei. Que que te deu? Quer dizer, você tá melhor?
     A sensação de um esquadrão de perguntas sobrevoando minha cabeça só me fez querer fingir que tava capotada ainda, e foi o que realmente pensei em fazer. Mas vi, de relance, um papel branco se destacando entre latas de cerveja amassadas e embalagens de junk food espalhadas no chão da sala. Então me lembrei. Não, não sei o que significava me lembrar da carta, mas me fez perceber que era hora de largar mão de pegar atalho no inconsciente e ir na contramão da realidade. Antes que o Rik acabasse com meu estoque e eu esgotasse minha consciência.
     - Pô, Rik, foi mal mesmo, perdão. Mas... não me enche de pergunta não, por favor! Ainda não entendi o que rolou, mas certeza que pode ter algo a ver o tabaco que cê tá fumando aí. Sabe, daqueles que o Sérgio trouxe... Me ajuda aqui a levantar? Minhas pernas tão formigando.
     E estavam mesmo. Mas o pior foi quando levantei a cabeça. Duendes devem ter se aproveitado da minha inconsciência e entraram na minha cabeça pra fazer uma orgia com as minhas faculdades mentais, ao som de Sidney Magal no volume máximo. Resolvi que era melhor apenas ficar sentada, já tava no sofá mesmo.
     - Vou pegar uma água pra ti. Tá com cara de quem vai chamar o Hugo de novo.
     Chamar o Hugo, quem fala assim? 
     - Chamar o Hugo? Quem fala assim? 
     Ele deu uma risada e disse, sem sarcasmo algum:
     - Que bom que cê tá aqui pra me dar coice! Sabe o preço de hospital veterinário pra quem não tem convênio?
     Trouxe a água e, sentando ao meu lado, tirou os cabelos rebeldes da minha cara delicadamente, com o cuidado que só os livres da hipocrisia de dar lições de moral sabem ter:
     - Fiquei preocupado, Riz. Sério mesmo. O porteiro saiu mais branco que o papel que trouxe pra você, tivemos que convencê-lo, ou melhor, quase ajoelhar e jurar que não te dopamos nem nada do gênero. O cara surtou. Faltou um pouquinho só pra ele chamar a polícia. Acredita?
     Ai, o papel! Não é que já tinha esquecido novamente? Como eu disse, a continuidade dos fatos é perturbadora. O sinal da minha conexão com o mundo ao meu redor e os fatos que me rodeiam estava fraco demais:
     - Mas, vem cá, ninguém abriu o envelope nem nada, né?
     - E por que alguém faria isso?
     Bebi minha água e acabei não respondendo. Beijei Rik, deitei em seu colo e fechei os olhos novamente. 
     Os duendes continuavam lá, em ritmo de festa.

Rasgue antes de ler (Parte I)

     Faltava apenas um valete para completar meu royal flush quando recebi aquela carta. O porteiro, ofegante e meio trôpego, tocou a campainha enquanto ajeitava a camiseta amarrotada pela correria do dia. Já era fim de tarde e o sol, desapressado, continuava a brincar de meio dia. Larguei as cartas na mesa com cautela e fui descalça abrir a porta, temerosa de que o mormaço do corredor entrasse em meu apartamento.
     - Boa tarde, seu Luís, ainda na labuta?
     - Sim, dona Clarice. A gente pensa que o tempo até parou com esse solzão aí. Não dá descanso, não.
     - Nem me fale. Por aqui não tá muito diferente, também. Mas no que posso ajudá-lo?
     Seu Luís, ainda procurando ar entre as palavras, me estendeu um envelope branco, meio amassado, como se dobrado várias vezes e colocado dentro do bolso traseiro de uma calça por um longo período:
     - Chegou pra senhora. Falaram que era urgente. E a senhora sabe como eu sou, dona Clarice. Se falou que tem urgência, não perco tempo nenhum, é na hora.
     - Obrigada, mas... o carteiro vem de domingo?
     - Foi isso mesmo que estranhei, dona. Não foi o carteiro que entregou. Veio uma moça e deixou. Encantadora. Mas meio estranha. Não diria assustada, acho que preocupad... Não, me fugiu a palavra, mas é uma dessas coisas que a gente sente só de olhar a pessoa nos olhos. Tenho esse dom de perceber isso nas pessoas,sab...? Dona Clarice, a senhora parece meio pálida, tá tudo bem?
      Barulho de estática. Meus olhos emudeceram. Deve ter sido isso. O fato é que uma nuvem subiu do meu estômago, aqueceu minhas entranhas, esfriou meu suor, e não sei se o whisky ou o tabaco que meu primo trouxe me fez apenas ouvir o porteiro, aparentemente preocupado comigo, porém sem vê-lo. Eu iria pegar a carta e agradecê-lo sem mais perguntas. Eu iria sentar, abrir e verificar o assunto e o remetente. Eu iria fingir que sei de que porra ele tá falando. Mas, em vez disso, resolvi vomitar no tapete da porta e perder a consciência, não sem antes cair de joelhos e bater com a cabeça no batente da porta. Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

---

     Do outro lado da rua tinha uma sorveteria. Ela se sentou num banco de madeira na parte externa do estabelecimento e se pôs a observar a paisagem, fixando-se num ponto, ou melhor, numa janela específica. Nono andar, terceira janela da esquerda para a direita. Suspirou e, calmamente, mergulhou os olhos no cardápio, não sem antes dar uma última olhada, sorrindo de canto. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

sábado, 4 de outubro de 2014

Trovas e trovões

Uns, tão porta;
Outros, tão porto:

Uma tênue linha
entre o 
horizonte e o
conforto

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

(Des)construção

Viver é 
um comportamento 
autod
           e
            s
              t
               r
                u
                  t
                   i
                    v
                               o

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Extra, extra

O jornal anunciava
que o mundo
foi descoberto

- Realmente aconteceu:

Fizeram do mundo
um lugar
frio

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Um dia memorável

   Como em uma de suas crônicas, consigo imaginar o cenário descrito com a mesma nitidez de uma lente objetiva e, com a mesma redoma de vidro que impede a natureza humana de deturpar tamanha nostalgia, observo seus inúmeros gestos. Consigo ouvir o senhor, num fim de tarde de um dia agitado, recebendo a ligação de seu filho perguntando como foram as coisas naquele dia. Já tinha a resposta tragada na memória e o que fez foi apenas exalar. Pois, afinal, tinha sido um dia maravilhoso.

   O senhor provavelmente lembrou da manhã tão esperada, na qual recebeu homenagens e presentes do deputado e dos vereadores da região, além da visita dos membros da Academia Metropolitana de Letras, Artes e Ciências, na qual já possui lugar há um certo tempo. Imagino que isso tenha te trazido, junto com os aplausos por seu trabalho atual no jornal da cidade, a lembrança da primeira radionovela que produziu, e aquela primeira voz do reconhecimento inundou seus sentidos novamente, sussurrando em seu ouvido que tinha feito a coisa certa ao largar a carreira militar para viver fazendo o que gosta, como se deve, para que tivesse uma vida que não fosse apenas vivida, e sim, vívida. Geralmente, apenas dois ou três membros da Academia cumprimentam - quando muito -, mas, naquele dia, todos aclamaram o senhor, e não tinha como deixar de esboçar uma emoção tão grande que não transcendesse suas palavras de agradecimento. Sim, foi um dia memorável. Mas amanhã teria mais.

   Ao telefone, lembrou-se primeiramente, enquanto descansava da agitação do dia, sobre os livros que ia pedir para seu filho levar na próxima visita. Sua coleção, sempre atualizada, lida e relida de cabo a rabo, estava precisando de uma incrementada. Já estava cansado de ler sobre Ramsés I e II, parecia que já não tinha mais novidades sobre o assunto. Claro que o senhor não sabia sobre o livro maravilhoso que seu filho tinha te arranjado, com muito ardor, sobre a história da humanidade relatada a partir de esculturas, cartas, objetos e escrituras, e também não sabia que eu ia te dar um de meus livros favoritos, O Livro dos Abraços, pois a surpresa ia ficar pra amanhã.

   Quando percebeu que a agitação tinha passado, sobrando apenas a brisa das recordações alegres, os estilhaços de luz se propagaram e o senhor relaxou em sua cadeira, contando com a mesma emoção da memória sobre seu dia. Enquanto discorria, não se surpreendeu com o sorriso serelepe e melancólico que ia esboçando cada vez mais. E, com esse mesmo sorriso, antes de desligar, comentou para o filho que tanto ama: "Ron, amanhã será o dia mais feliz da minha vida.". Coisa que já tinha dito antes, porém fez questão de repetir antes de desligar.

   O senhor disse que amanhã seria o dia mais feliz de sua vida. O senhor faleceu enquanto dormia.


   Realmente, vô, escritores não morrem: Exalam poesia.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

terça-feira, 1 de julho de 2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Destoando

O gosto do som metálico
que certas vozes emitem
quando em meu corpo roçam

refletem latejantes 
fagulhas
em meus tímpanos
eloquentes

conscientes
de que a surdez
é momentânea
e, o calor, abrangente

e de que nada mais importa
além do ruído em nossa 
mente

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Recluso

Era como silêncio
de fundo de garrafa

- louco no oco -

esperando encher,
inundar,
e afogar as mágoas
num copo de bar

Planejamento

Poderia mentir 
por toda uma 
vida,

mas antes 
teria que saber a 
verdade

domingo, 11 de maio de 2014

Erudição

No dia em que os profetas
profanarem tronos 
divinos 
em gozo erudito

e os estatutos 
estatizarem as doenças
hereditárias

convocaremos a 
assembleia dos 
hipócritas e dos
hipocondríacos

e pensaremos
no futuro do 
humanismo

sem a humanidade

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Veja bem

Sinto mais do que entendo
Sinto que entendo
Muito mais do que
Realmente sei

E sei que não compreendo
Muito do que vejo
Então, veja bem:

Acaba que de tudo
Pouco entendo


Sinto muito
    Nada sei

domingo, 27 de abril de 2014

Metrópole em (des)construção

Canalizando os amanhãs
Para um hoje que nunca existiu
O vento em minhas entranhas
Arrasta minha essência para todos os lados
Devastando meus interiores
Urbanizando-me

Sem estrada
Metropolizada
Surpreendida pela construção

Desmoronei em mim
Para cair no mundo

Minhas cinzas rodopiam
Ululantes
Na fumaça
No hemisfério
Na redoma
No holocausto
Na sobra
Nos templos
E nas fronteiras
Das terras com as quais
Eu não teria porque
Sonhar

terça-feira, 1 de abril de 2014

Miscelâneas esporádicas da inércia contemporânea

A luz já havia voltado, mas o gotejar lento e hipnotizante da cera quente no taco deixava um aroma amadeirado e rústico naquele apartamento tão mórbido e desabitado, como se estivesse guardado por anos dentro de um gaveteiro velho no sótão daquela metrópole, junto dos famosos cabarés, das simplórias pharmácias e armazéns, sem poder ser farejado ou removido, nem mesmo pela Grande Varredura, a qual eliminara tudo o que daria a ideia de que um dia houve uma história que não fosse moderna, um passado que não fosse presente. Sentei num canto daquele cômodo em posição fetal, pois sabia que o momento iria se exaurir ao primeiro toque de campainha, ou com o primeiro latido distante, então aproveitei para absorver e retroceder um pouco, numa tentativa desesperada de nutrir um pouco do que possa ser a minha história e eu pudesse, assim, existir um pouco mais em mim, como também poderia existir um pouco mais no mundo, se houvesse um pouco mais de mundo para existir.
Esse mundo do qual vos falo só existe para mim quando não estou absorto em liberdade clandestina, aparecendo apenas como projeção de meu inconsciente, vivido pelo outro eu que há em mim. Ele existe em plenitude, isso não posso ignorar em nenhuma das vidas de minha existência. Preenchido por completo, como cerveja fabricada, foi pressurizado, lacrado e, como todo produto biótico, possui sua data de validade carimbada na base, mas apenas basta olhar as testas e os olhos das pessoas para se ter uma noção básica. Ou seja, tudo que poderia existir já existe. Extravasem, imaginem tecnologias absurdas, que façam seus miolos estourarem, ou armamentos que realmente os estourem. Fonte de energia infinita está na lista, sim. Menti quando disse que em algum momento a luz havia acabado, era realmente o que queria pensar, mas não, não era bem assim. O que a raça humana tinha a oferecer ao mundo, em termos de criações e evoluções, já o havia feito; o que o mundo poderia oferecer às pessoas era demais, mas nem próximo do suficiente. Bom, ao menos as curas para todas as doenças foram descobertas, ao passo que descobriram mais doenças para curar. Um mundo no qual os slogans das propagandas eram infalíveis. Um mundo autossuficiente, com pessoas que não precisam saber o significado da palavra necessidade, um mundo completo, modernizado, futurístico, inovador - ao menos inovou a minha dor. Tudo cheio, mas isso não foi o bastante para preencher o vazio que há nos espaços entre as palavras, ou na duração de um olhar, ou no vão que há entre esse cômodo e o que já houve no mundo. Coleciono uma história para fazer minha, pode ser a mais escrota que tiver, pois essa vivência mais que perfeita sem pretérito algum me enoja, e o tempo me inala enquanto derrete aquela vela.
Às vezes penso em me levantar, tomar um bom café forte, ir à banca de jornal e ver as catástrofes do dia, comprar um cigarro, descer a ladeira da rua Arduino e entrar no prédio de tijolos logo na esquina, onde poderia entrar sem me identificar pois “Não é cliente, mas já é de casa”; Esperaria o elevador por uns longos dois ou três minutos, até que o zelador venha arrastando os pés com seu sapato e sua alma desgastada e murmure em um tom oco e sem timbre que o elevador está novamente quebrado por causa dos arruaceiros-da-madrugada-ah-se-eu-pego-essas-pestes, então eu agradeceria com um aceno de cabeça, seguiria pelo corredor e subiria as escadas em caracol com certa pressa apenas para aumentar minha resistência para tonturas, algo que não dava muito certo, principalmente carregando o café; Chegando ao sexto andar, com uma iluminação digna de odes, andaria a passos largos, fazendo ranger os tacos gastos de madeira clara, e iria direto até a mesinha de canto checar as correspondências que nunca chegam e, em meu torpor, procuraria um lugar no qual pudesse me corresponder comigo diretamente, e procuraria um canto no qual os problemas se extinguissem por decreto. Então sentaria em uma escrivaninha de madeira rústica - sem verniz e com direito a farpas - apoiaria a cabeça nas mãos, os cotovelos na mesa, olharia para a janela, suspiraria profundamente desejando apenas voltar pra casa e pensar que tudo não passava de uma lembrança, um sonho persistente. Mas sei que não passa de um capítulo de um livro que li durante a juventude, Desconvidando a Aurora - o qual, por sinal, veio a ser o meu favorito, e o único restante de minha coleção, agora jogado embaixo do sofá.
Não há muito o que se sonhar quando não há muito o que ser. Não há muito o que saber quando não há muito o que perder. Mas agora reconheço, com o pesar dos que já não têm pelo que sofrer, que buracos não se tampam, devem ser preenchidos, e que histórias não devem ser contadas, devem ser vividas, tão voláteis, cítricas e melifluentes como a corrente elétrica acendendo as luzes de neon numa noite de outubro, na qual a única preocupação seria chegar a tempo em um bar para encontrar os amigos, os colegas e os sonhadores primaveris. Mesmo com essa convicção, alguns hábitos não se perdem tão facilmente, então me ponho a narrar, com a certeza dos astrônomos, sobre as miscelâneas esporádicas da inércia contemporânea, logrando que haja uma manhã de sol que tire o mundo da cama e o faça ver que o espetáculo continua, que ele não é uma escultura renascentista, em sua estática dolorosa e sua perfeição nauseabunda. Traremos machados e quebraremos todo o cimento, tudo o que há de concreto, todo o conceito e toda forma. Tudo que um dia foi esperado, mas que esperamos que não seja mais, para podermos apenas desejar de novo um pouco mais, um pouco menos, apenas para desejarmos um pouco. Tanta coisa para não se preocupar, e eu só queria não me dar por satisfeito. Tanta coisa para não se lembrar, e eu só queria uma dose de nostalgia, um motivo para não ter que dormir para poder sonhar.
Aquele outro que me habita aprendeu a conviver em modo automático do lado de fora dessa sala, apenas esperando minha chegada. Talvez um dia eu realmente venha a ser eu, apenas eu. Nesse dia irei, e muitos outros irão também, mover as pedras e os oráculos, chegando na base do que nos levou a ser o que somos, e chegar onde chegamos, deixando nossos chapéus no vestíbulo, sentando no balcão e pedindo uma média e uma dose de licor, apenas para adoçar. Ligaremos as tão saudosas e defasadas televisões, esperando o noticiário manipular catástrofes e errar vinhetas, fazendo com que tudo fosse o que deveria ser: um erro. E, enquanto esse dia não chegar, continuarei por aqui assistindo a cera endurecer como o sangue coagulando em veias entorpecidas. Continuarei protegendo minha pele, colocando-a do lado de dentro e minha alma fugitiva do lado de fora, e irei vivendo pelo avesso uma vida nem tão minha, nutrida de histórias mal contadas, de um mundo nem tão meu, na periferia da liberdade e da fantasia, vizinhas eloquentes numa mente tão vazia.
O amanhã logo irá chegar, trazendo mais um hoje saído do forno, para esfriar com a temperatura ambiente, com o marasmo do mormaço de final de tarde. A vela, já insuficiente, apagou. Encolho-me um pouco mais.
A campainha tocou.
Alguém se levanta e me conduz a porta.

Era o carteiro.

terça-feira, 25 de março de 2014

Ciclo da fundição

 Arte

                                        É                               Da

Consequência inconsciente
da
Consciência inconsequente

                                       Da                              É


Vida

quinta-feira, 20 de março de 2014

O latido e a latitude

A falácia utópica
Da verdade remediada
Dos problemas crônicos
E das crises agudas
Acabará por levar
As manias de grandeza
Ao apogeu de sua queda
Até que o fundo do poço
Seja o limite
E o começo de
Algo muito
Maior

sábado, 8 de março de 2014

A inércia contemporânea e sua notoriedade

Se não fosse essa loucura desenfreada
De não ter nada sob controle
Sobraria apenas
A notória ilusão
De controlar uma lucidez
Como uma parede no deserto
De uma vida limitada
Pelas portas sem 
batentes
E sorrisos descontentes
Por trás da barricada

quinta-feira, 6 de março de 2014

E o mundo, quintane-se

Todos estes proclamarão
Ver o mundo em desalinho
Eles, com sua versão
Eu, só no versinho

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Só acredito no semáforo

Desesperadamente
ansiava
por um sinal
qualquer
da vida,
enquanto tamborilava
os dedos
na janela
do ônibus parado

O semáforo
travou
no amarelo

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Um bom dia

Desceu as escadas. Pegou o jornal. Molhou os pés na poça. Urrou. Estava sem sapatos. Havia um caco no meio. Apenas mais uma garrafa quebrada. Correu mancando em busca de um chinelo. O chileno disse que não o venderia por um real. Subiu meio vacilante. O sangue empapava o mármore. Trancou-se para fora de casa. Enrolou algumas páginas do jornal para estancar o sangue. Cambaleou escada abaixo. Havia um hospital a menos de três quarteirões. O jornal, embebido, grudou na ferida, dificultando a suturação. Na volta para casa, escorregou na pegada de sangue deixada na escada. Bateu a cabeça. Sangrou. Deixou pingar. Enquanto esperava o chaveiro sentou-se em um degrau. Abriu o que restava do jornal. Seu horóscopo disse que seria um bom dia. Ganhou mais pontos do que os que acertou na loteria. Mas abaixaram o imposto da bolinha de gude. Foi um dia legal

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Delírios catatônicos

Uma explosão cataclísmica de energia eletromagnética irá destruir todas as fotografias digitais do planeta.

E a verdade será revelada

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A arte da escrita

Comprei um caderno em branco e o nomeei O Livro das Palavras Inocentes. Deu um belo caderno de desenhos

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Overdose


Aquele café
     Gelado no copo
          Queimou minha língua
               Matou minha sede
          Vazando dos lábios
     Caindo no corpo
Manchando o tapete

Do mesmo vermelho

Daquela parede

Escorre um filete

sábado, 11 de janeiro de 2014

Pregação

No dia em que as palavras sangrarem
Cada sentença será um crime;
A pena, condenada à morte
Assina sua própria sina
Assassina

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O homem do futuro do pretérito

Essa poderia ser a história dele. 
Se fosse mesmo, certamente não a contaria. 
Se a inventasse, não mentiria. 
Se fosse você, não a leria. 
Ainda assim, tentaria.
Por isso mesmo não a escreveria
E não a escreverei