Se a arte se faz, por
si só, ferramenta e obra de algo - concreto ou abstrato - que deve
eternizar-se, por que dividi-la em movimentos, épocas ou contextos?
A arte é conceito e resultado, é a auto explicação que implica em
desaprender o que não se sabe, para poder ser olhada com outros olhos;
não necessariamente os do autor, mas sim com novos olhos, com novos
pensamentos, às vezes mais arcaicos que os antigos, às vezes além
da arte, o que chamo de arte sobre arte (Não, o conceito de arte
sobre arte provavelmente não é esse, mas é assim que o denomino).
O que seria
interessante é procurar na arte o que ela não mostra, e nos veremos
todos em um grande vazio, pois ela implica na existência do artista,
da obra e da existência. Uma obra é idealizada a partir de
momentos, tanto conturbados quanto ociosos, porém nunca comprovados
como sendo consecutivos. Oras, se o próprio artista, ao idealizar e ao
realizar uma obra, seja ela qual for, não utilizou apenas o que
sentia ou queria expressar no momento da composição, porque devem classificá-la e
encaixotá-la com padrões e semelhanças exteriorizados e abordados
por outros artistas, os quais dizem que "compõem" um mesmo
movimento por diversos critérios, primeiramente, estereotipados e meramente similares?
Quem sabe o que se passou na cabeça de cada um ao exprimir a arte,
como saber se a obra representa o que os críticos dizem, o que os
artistas filosofam, ou o que os espectadores querem interpretar? Como
saber se o que a arte apresenta é o que ela representa?
A arte, em si, tem
vida. Tem significado, e é completa por si só; mas só será assim
considerada quando interpretada? E, caso seja mal interpretada, será
lixo? Lixo não é arte? Arte não é lixo? Movimentos, técnicas, e
pontos de vista, tudo tão relativo e temporário, e a arte deve
fazer-se eternamente aquilo que sempre foi?
Buscam eternizar, em
uma obra, sentimentos e pensamentos que não podem ser guardados para
sempre, pois, afinal, se algo é real é temporário. Se os conceitos
mudam, os processos e resultados também o fazem. O eterno é um
ideal, uma utopia, um anseio. As obras devem guardar o que o artista
teme perder ou o que precisa esconder? A arte é amorfa, e o ponto de
vista relativo destrói e reconstrói a mesma.
Arte sobre arte
sobram artistas e falta
arte.
Os olhos transformam a
vista,
mas parece que faz
parte
Seria, enfim, a arte o
pó que trancafiam em ampulhetas, pragmático e preciso, ou a areia
na beira do mar, exposta ao vento, ao tempo e ao mundo?